Avaliação do Crescimento e Desenvolvimento na Adolescência

 

Adolescência

 

A adolescência, que compreende dos 10-20 anos, é a fase pela qual o indivíduo passa por transformações complexas, uma vez que estão saindo da infância e se encaminhando para a fase adulta. Esse período engloba modificações biológicas e sociais que os seguirão para o resto da vida. Dentre essas mudanças, os contextos físico, psicológico e social do indivíduo são os mais importantes a merecerem atenção especial do sistema de saúde. Desse modo, a consulta do adolescente difere da consulta pediátrica comum devido às peculiaridades dessa fase de transição.

 

Crescimento

 

  • Definição

O crescimento é definido como o aumento do tamanho do corpo.

 

  • Avaliação e Monitorização

Para avaliar o crescimento, temos como principais medidas a estatura, o peso, o IMC, as proporções corporais, o alvo genético, as maturações óssea e sexual.

É necessária uma monitorização periódica dos adolescentes para avaliar progresso normal do seu crescimento e desenvolvimento ou detectar anormalidades.

Durante a adolescência recomenda-se uma consulta médica completa a cada dois anos e uma visita anual para orientação de redução de riscos.

 

  • Gráficos de crescimento

É extremamente importante que a medição do crescimento seja comparada em gráficos de crescimento-padrão. Os gráficos são utilizados para comparar as medidas em série visando identificar risco de doenças genéticas, hormonais e sobrepeso e identificar precocemente desvios no padrão do crescimento ou de peso mesmo que ainda se mantenha na faixa de normalidade.

 

 

Para idades de 2-20 anos os gráficos incluem peso por idade, estatura por idade e índice de massa corporal (IMC) por idade.

 

  • Estatura, Peso e Índice de Massa Corporal

A estatura é influenciada por fatores genéticos, ambientais, nutricionais, higiênicos, sociais e psicológicos. A aferição se faz com o paciente em pé encostado em superfície plana devendo o estadiômetro ser apoiado na cabeça a um ângulo de 90º. O crescimento máximo pode alcançar em média 9,5 cm/ano no sexo masculino, e 8,3 cm/ano no sexo feminino. No sexo masculino, usualmente a aceleração de crescimento ocorre nos estágios 3 e 4 de Tanner de genitais, quando o volume testicular alcança cerca de 9-10 cm3. O pico é por volta dos 13,5 anos e termina por volta dos 18 anos. A maioria atinge a velocidade máxima do crescimento no estágio 5. A aceleração do crescimento no sexo feminino acontece nas fases iniciais da puberdade, entre os estágios 2 e 3 de Tanner para mamas e pêlos pubianos. Sempre precede a menarca, que geralmente coincide com a fase de desaceleração do crescimento e com o estágio 4 de Tanner. O estirão do crescimento ocorre de forma assimétrica, ou seja, extremidades crescem primeiro e o tronco se alonga no final.

O peso é utilizado como um dos parâmetros para avaliação nutricional do adolescente. Utiliza-se uma balança tipo adulto calibrada, onde o paciente sobe com o mínimo de roupas e com os braços estendidos ao longo do corpo. O peso atual é a medida obtida na consulta em questão e o peso usual é a medida da avaliação anterior. O peso ajustado condiz com a circunstância de excesso de peso ou baixo peso para o cálculo de energia ou nutrientes necessários para compor a dieta nessas situações.

O IMC não mede a gordura corporal diretamente, mas correlaciona-se com medições diretas da gordura corporal. Para crianças e adolescentes é usado para averiguar o sobrepeso, risco de sobrepeso ou peso abaixo do saudável. O IMC para idade percentil é usado para interpretar o número do IMC porque é específico para idade e sexo do adolescente. Esse critério difere do usado para adultos, o qual não leva em conta a idade e sexo. O sexo e idade são usado para crianças e adolescentes porque neles a quantidade de gordura corporal varia conforme estas características.

O percentil indica a posição relativa do IMC do adolescente em relação a outros do mesmo sexo e idade. O diagrama mostra as categorias de classificação de peso para adolescentes: abaixo do peso, peso saudável, sob risco de sobrepeso, sobrepeso.

 
Categoria de peso Faixa percentil
Abaixo do peso/ desnutrição ou magreza Menos de 5 percentil
Peso saudável Entre 5 e 85 percentil
Risco de sobrepeso Entre 85 e 95 percentil
Sobrepeso/ Obesidade Igual ou maior que 95 percentil
 

A OMS recomenda a utilização de 2 indicadores para a avaliação nutricional dos adolescentes: o IMC e o escore Z, além de considerar a maturação sexual.

 

  • Proporções corporais


Relação entre segmento superior/ segmento inferior (SS/SI) e envergadura/estatura. Elas avaliam a proporcionalidade do crescimento. Na adolescência a relação SS/SI é próxima a 0,9-1,0. Discrepâncias sugerem mal-formações ósseas, displasias ou raquitismo.

 

  • Alvo genético


O alvo genético é a altura média a qual o paciente deve atingir de acordo com a genética de sua família.

Para meninas, o alvo genético é: altura da mãe+ (altura do pai – 13cm) / 2

Para os meninos, o alvo genético é: altura do pai+(altura da mãe + 13cm) / 2.

Dentre as principais causas de baixa estatura na adolescência podemos citar a baixa estatura familiar, a baixa estatura constitucional (crescimento mais lento porém atingem estatura normal ao final do período de crescimento), a deficiência do hormônio do crescimento, problemas relacionados à glândula tireóide, diabetes sem controle, doenças ósseas, asma, desnutrição, AIDS, doenças genéticas etc.

Em contrapartida ao problema da baixa estatura, temos o oposto, que é a “alta estatura”. A alta estatura pode ser hereditária ou constitucional, ou pode ser resultado de distúrbios glandulares, síndromes genéticas e outras doenças.

 

  • Maturação óssea


Determinado pelo fechamento das epífises ósseas, indica a estatura final do indivíduo independente de sua idade cronológica. Problemas ortopédicos podem ser decorrentes de traumas em ossos e articulações em desenvolvimento.

 

  • Maturação sexual
  • Puberdade

Pertencente a fase da adolescência, representa duas das principais modificações biológicas desse período: a maturação sexual e o estirão do crescimento. É conhecida como a fase biológica de crescimento e desenvolvimento físico e psicológico.

 

  • Estágios de Tanner

Utilizado como embasamento para a detecção da maturação sexual de ambos os sexos.

 

  • Feminino

O primeiro sinal de puberdade na menina é o aparecimento do broto mamário (estágio M2) entre o 8º e o 12º ano de vida. Ocorre, em seguida, o início da pilificação pubiana (estágio P2) entre os 9 e 13,5 anos, sendo completa por volta dos 16,5 anos. Após esse período ocorre a pilificação axilar. A menarca acontece nas fases mais avançadas da maturação (M3 e M4 de Tanner) em torno dos 10 a 15 anos, cerca de 2 a 2 anos e meio após o início da pilificação pubiana e 1 ano após o pico da velocidade de crescimento.

 

 

  •   Masculino

No sexo masculino, o primeiro sinal de puberdade é o aumento do volume testicular aos 9 anos e meio (estágio G2 de Tanner). Posteriormente, há o aparecimento dos pêlos pubianos e o aumento do volume do pênis. Pêlos axilares surgem 2 anos após o aparecimento dos pêlos pubianos. A pilosidade facial aparece após a axilar.

 

Além da estatura, já mencionada anteriormente, há ainda na fase de crescimento masculino aumento da massa muscular, que é mais acentuada que no sexo feminino, bem como modificação na qualidade da voz.

A ginecomastia no sexo masculino é normal durante a puberdade (40-65% dos casos) ocorrendo nos estágios 2 e 3 de Tanner. Isto pode acontecer por influência de diversos fatores, como, por exemplo, a obesidade, desordens endócrinas, a puberdade ou o uso de certas drogas. Esse fato é importante de ser avaliado, pois podem ocorrer doenças subjacentes a esse evento. Elas podem se iniciar antes ou depois da puberdade, bem como pode aparecer na ausência dos caracteres sexuais secundários.

Dados como o uso de drogas (esteróides anabolizantes), medicações (bloqueadores H2, psicotrópicos), síndrome de Klinefelter, doença tireoidiana e tumores podem ser esclarecedores como causa dessa manifestação. Caso não haja involução da mama, deve ser tratada cirurgicamente, principalmente se trouxer problemas de ordem estética e psicossocial para o adolescente. Aumentos maiores que 4 cm podem necessitar tratamento hormonal ou cirúrgico.

 

  • Alterações

Além das alterações já mencionadas, uma alteração muito importante nessa faixa etária é o atraso puberal. Consiste na “ausência de caracteres sexuais secundários por volta de 13 anos e 4 meses em meninas, e 13 anos e 8 meses em meninos (Albanese & Stanhope, 1995). Para a população brasileira, considera-se atraso puberal a ausência do desenvolvimento mamário (estágio 2) em meninas aos 13 anos ou a ausência de desenvolvimento genital no sexo masculino aos 14 anos (estágio 3), independente da presença ou não de pêlos pubianos ou axilares.”

 

  • Desenvolvimento
  • Definição

Progresso funcional relacionado ao corpo e à mente. São as características do desenvolvimento psíquico-emocional. Foram agrupadas na “Síndrome da Adolescência Normal (SAN)” e não tem nada de patológico nela. Ela é necessária para construção da identidade (conhecimento de si mesmo), intimidade (capacidade de relacionar-se de forma madura), integridade (capacidade de assumir os próprios atos com responsabilidade) e independência do adolescente.

Para buscar a identidade adulta, o adolescente deve passar por 3 grandes perdas: do corpo e da personalidade infantis e separação dos pais.

 

  •  Síndrome da Adolescência Normal

A SAN é formada por 10 itens:

  1. Busca por si mesmo e da identidade adulta;
  2. Separação dos pais;
  3. Formação de grupos;
  4. Desenvolvimento do pensamento abstrato, necessidade de intelectualizar e fantasiar;
  5. Contradições de conduta;
  6. Crises religiosas;
  7. Vivência temporal singular;
  8. Atitude social reivindicatória;
  9. Flutuações de humor e ânimo;
  10. Evolução sexual.
Adolescência Inicial Intermediária Final
Idade 10-13 anos 14-16 anos 17-20 anos
Estágio de Tanner 1-2 3-5 5
Alterações somáticas Aparecimento das características sexuais secundáriasAparência desajeitada Estirão do crescimentoMudança na forma do corpoAcne e odores corporaisMenarca e espermarca Amadurecimento físicoCrescimento lento
Alterações cognitivas Operações concretasIncapacidade de entender os resultados de suas decisões a longo prazo Operações formais (Pensamento abstrato)Percebe as futuras implicações de suas decisões, mas não consegue modificar a condutaQuestionamento IdealismoAbsolutismo
Alterações comportamentais1. Independência Diminuição do interesse de atividades com os pais Conflito com os pais Reaceitação dos valores dos pais
2. Imagem corporal Preocupação com as modificações corporaisInsegurança com a aparênciaInteresse pela anatomia sexual; poucos namoros Aceitação maior do corpoPreocupações em tornar-se atraente Aceitação das modificações
3. Grupo Intenso relacionamento com amigos do mesmo sexo Intensificação da formação dos gruposSeguimento da “cultura e comportamento” do grupoInício de namoros e relações sexuais Menor importância do grupoMaior tempo e durabilidade das relações íntimas
4. Identidade Aumento da necessidade por privacidadeAumento da demanda por independênciaFantasiaImpulsividade Desenvolvimento da intelectualidadeOnipotênciaMaior introspecçãoConflitos controle versus independênciaComportamentos de risco Imagem corporal e emoções mais estáveisEmancipaçãoDefinição da identidade, com refinamento dos valores morais, éticos, sexuais e religiososSeparação física e emocional da famíliaPlanejamento para o futuro

 

 

Referências bibliográficas

 

  • BINCKLEY, Lynn S.; SZILAGUI, Peter G.. Bates Propedêutica Medica, Oitava Edição. Editora Guanabara Koogan S.A.
  • CHIPKEVITCH, Eugênio. Avaliação clínica da maturação sexual na adolescência. J Pediatr (Rio J) 2001;77(Supl.2):s135-s42. Disponível em: <http://www.jped.com.br/conteudo/01-77-S135/port.asp>. Acesso em 04 junho 2011.
  • EISENSTEIN, Evelyn;COELHO, Karla. Crescimento e Desenvolvimento Puberal. A saúde de adolescentes e jovens: competências e habilidades. Disponível em: <http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/multimedia/adolescente/textos_comp/tc_08.html>. Acesso em 04 junho 2011.
  • KLIEGMAN, Robert M.; MARCDANTE, Karen J.; JENSON, Hal B.; BEHRMAN, Richard E.. Nelson, Princípios de Pediatria. Quinta Edição. Editora Saunders-Elsevier.
  • ZEFERINO, Angélica M.B.; BARROS FILHO, Antonio A.; BETTIOL, Heloisa; BARBIERI, Marco A.. Acompanhamento do crescimento. J. Pediatr. (Rio J.) vol.79  suppl.1 Porto Alegre May/June 2003. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0021-75572003000700004&script=sci_arttext>. Acesso em 04 junho 2011.

 

Artigo elaborado para o Medportal  por Carolina Stoffel.

 

Publicado no Medportal em 17/03/2012

 

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1 Comment

Júlia

about 2 anos ago Responder

Quero ler mais sobre o assunto, pois muito me interessa

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